Disciplina: Histria Moderna

Livro: CULTURA POPULAR NA IDADE MODERNA
Autor: Peter Burke
Editora: Companhia das Letras

Peter Burke

CULTURA POPULAR NA IDADE MODERNA
Europa, 1500-1800

Traduo:
DENISE BOTTMANN


2 edio
2 reimpresso
Companhia das Letras

Cultura popular na idade moderna, do historiador ingls Peter Burke, tem como principal objetivo apresentar um quadro global da cultura popular na Europa pr-industrial. 
Em termos espaciais, este estudo abrange da Irlanda aos montes Urais, f ria Noruega  Siclia. No tempo, compreende o perodo de trs sculos que vai do surgimento 
dos primeiros folhetos populares impressos  conhecidos como broadsides e chap-books na Inglaterra  s Revolues Industrial e Francesa.
Com nfase no cotidiano, mas procurando situar objetos e atividades num  contexto social, econmico e poltico mais amplo, Peter Burke descreve o mundo dos artistas 
profissionais de variedades  menestris, bufes, malabaristas, charlates, atores itinerantes e contadores de histria  sem deixar de examinar as canes e as 
histrias, as representaes teatrais e os rituais que as  pessoas comuns encenavam para si mesmas.
Heris, viles e bufes populares so abordados de modo a revelar as atitudes e os valores daqueles grupos que de outro modo eram inarticulados  artesos, camponeses, 
pastores, mineiros, marinheiros, mendigos e ladres, alm de suas esposas e filhos. Modeladas por complexas condies sociais, tais atitudes e valores sofreram significativas 
modificaes, concomitantes com as grandes transformaes por que passou a sociedade europia de 1500 a 1800.
Por outro lado, o autor tambm acompanha as atitudes das classes superiores em relao  cultura popular: como participavam desta, tentaram reformar seu ''desregramento" 
e sua "superstio" e se entusiasmaram por seu exotismo.

Copyright  1978 by Peter Burke
Ttulo original:
Popular Culture in Early Modern Europe
Capa:
Ettore Bottini
Reviso tcnica:
Maria Lcia Garcia Pallares
Preparao:
Bruno Fuser
ndice remissivo:
Srgio Pereira de Almeida
Reviso:
Vera Lcia de Freitas
Jos Waldir Santos Moraes
1a edio (maio de 1989)
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Burke, Peter
        Cultura Popular na Idade Moderna / Peter Burke,
traduo Denise Bottmann.  So Paulo : Companhia das
Letras, 1989.
ISBN 85-7164-044-0
1. Europa  Cultura popular 2. Europa - Histria 
1492 l. Ttulo.

89-0564___________________________CDD-940.2
ndice para catlogo sistemtico:
1. Europa : Cultura popular : Histria, 1453- 940.2
2. Europa : Histria, 1453- 940.2
3. Idade Moderna, 1453-  Europa : Histria 940.2

1999

Todos os direitos desta edio reservados 
EDITORA SCHWARCZ LTDA.
Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 72
04532-002  So Paulo  SP
Telefone: (0xx11) 866-0814
e-mail: editora@companhiadasletras.com.br

Qui dit le peuple dit plus d'une chose: c'est une vaste
expression, et l'on s'tonneroit de voir ce qu'elle embrasse,
etjusques, et jusques ou elle s'tend.

La Bruyre, Les Caractres, Paris, 1688,
"Des Grands"

Para Sue

NDICE
Agradecimentos ............................................................................................ 13
Nota ............................................................................................................... 14
Introduo a esta edio ..............................................................................  15
Prlogo........................................................................................................... 25
Parte 1
EM BUSCA DA CULTURA POPULAR
1. A descoberta do povo ........................................................................................... 31
2. Unidade e diversidade na cultura popular ............................................................ 50
As classes altas e a "pequena tradio" ......................................................  50
Variedades da cultura popular: o campo ...................................................... 56
Variedades da cultura popular: as cidades ..................................................  62
Os andarilhos ................................................................................................ 68
Variaes religiosas e regionais ..................................................................  74
Interao ....................................................................................................... 84
3. Uma presa esquiva ............................................................................................... 91
Os mediadores .............................................................................................. 91
Abordagens indiretas da cultura popular .................................................... 103
Parte 2
ESTRUTURAS DA CULTURA POPULAR
4. A transmisso da cultura popular ....................................................................... 115
Os profissionais ........................................................................................... 116
Os amadores ............................................................................................... 126
Cenrios ...................................................................................................... 132
Tradio e criatividade ................................................................................ 136
5. Formas tradicionais..............................................................................................140
Gneros .......................................................................................................140
Temas e variaes .......................................................................................148
O processo de composio ..........................................................................161
6. Heris, viles e bobos .........................................................................................173
Prottipos e transformaes ........................................................................174
Atitudes e valores populares ........................................................................193
7. O mundo do Carnaval......................................................................................... 202
Mitos e rituais .............................................................................................. 202
Carnaval .......................................................................................................206
O "mundo de cabea para baixo" ........................        ........................................210
O carnavalesco ........................................................................................... 215
Controle social ou protesto social? ............................................................. 223

Parte 3
TRANSFORMAES NA CULTURA POPULAR
8. A vitria da Quaresma: a reforma da cultura popular ........................................ 231
A primeira fase da reforma, 1500-1650 ...................................................... 231
A cultura dos devotos .................................................................................. 246
A segunda fase da reforma, 1650-1800 ................................................... .. 257
9. Cultura popular e transformao social ...............................................................266
A revoluo comercial ..................................................................................266
Os usos da alfabetizao .............................................................................272
A poltica e o povo ........................................................................................280
A retirada das classes superiores ................................................................291
Da retirada  descoberta ..............................................................................301

Apndice 1: A descoberta do povo: antologias e estudos selecionados,
1760-1846................................................................................................................307
Apndice 2: Publicaes selecionadas ilustrando a reforma da cultura popular, 1495-1664.............................................................................................
.............................309

Notas ............................................................................................................311
Bibliografia ...................................................................................................345
ndice remissivo ...........................................................................................383

As ilustraes esto impressas entre as pp. 306 e 307


AGRADECIMENTOS

Ao escrever este livro contra ainda mais dvidas do que o usual.Gostaria de agradecer  Academia Britnica por uma bolsa de intercmbio, que me permitiu visitar 
pessoas e museus na Noruega e na Sucia, e  Universidade de Sussex pela licena de dois perodos letivos e pelo reembolso das minhas despesas com a datlografia. 
Ruth Finnegan, da Open University, e meus colegas de Sussex, Peter Abbs, Peter France, Robin Milner-Gulland, John Rosselli e Stephen Yeo, tiveram a gentileza de 
comentar os rascunhos de parte ou todo o livro. Minha incurso em seus territrios foi ajudada por diversos estudiosos escandinavos, principalmente Maj Nodermann, 
em Estocolmo, Marta Hoffmann, em Oslo, e Peter Anker, em Bergen. Tambm agradeo aos diversos historiadores na Gr-Bretanha que passaram-me referncias ou responderam 
a dvidas. Alan Macfarlane deu-me a oportunidade de submeter algumas idias do captulo 7 a um animado grupo de historiadores e antroplogos sociais reunidos no 
King's College, Cambridge. Um esboo prvio do captulo 3 foi apresentado numa conferncia na Universidade de East Anglia, em 1973, e agora est publicado em C. 
Bigsby (org.), Approaches to Popular Culture, 1976; gostaria de agradecer a Edward Arnold Ltd. pela permisso para a sua republicao.
Tambm gostaria de agradecer a Margaret Spufford pelos comentrios que chegaram logo antes das provas. Pg.13

NOTA
Um livro com esse escopo est inevitavelmente abarrotado de nomes e termos tcnicos. Avisa-se o leitor que encontrar no ndice remissivo, que tambm traz um glossrio, 
breves detalhes biogrficos sobre pessoas mencionadas no texto. Muitas referncias apresentadas nas notas esto abreviadas; vm citadas na ntegra na bibliografia. 
Exceto indicao em contrrio, as tradues so minhas.

INTRODUO A ESTA EDIO
Desde quando este volume foi publicado, h uma dcada, a pesquisa sobre cultura popular cresceu como um riacho que se transforma num caudaloso rio, o que fica muito 
claro pela leitura da bibliografia suplementar. Contribuies valiosas foram feitas aos tpicos discutidos nos captulos deste livro.1
Um nmero considervel de novos estudos foi dedicado a quase todos os pases da Europa. No caso da Espanha, por exemplo, esses estudos incluem o trabalho de William 
Christian sobre as religies populares, ou "locais", como ele prefere cham-las; o de Jaime Contreras, Jean-Pierre Dedieu, Ricardo Garca Carcel e outros, sobre 
a investigao levada a cabo pela inquisio das crenas das pessoas comuns, e a reavaliao de Goya feita por Jutta Held, bem como um conjunto de ensaios sobre 
literatura popular.2
No apenas monografias, mas algumas densas colees de artigos foram dedicadas  histria da cultura popular na Inglaterra, na Frana, na Alemanha e na Polnia, 
bem como no conjunto da Europa.3
Os historiadores de outras partes do mundo descobriram a cultura popular ou, para ser mais preciso, alguns deles decidiram, aps uma reao inicial de desconfiana, 
que o conceito de cultura popular pode ser til em sua pesquisa.4 Os historiadores americanos da China, por exemplo, realizaram uma conferncia sobre a histria 
da cultura popular, enquanto em Cambridge um seminrio de historiadores da sia meridional focalizava o mesmo tema.5 No sei de nenhum simpsio similar sobre a histria 
da cultura popular da Amrica Latina, mas h alguns estudos nessa rea, especialmente estudos do Brasil.6
O interesse cada vez maior em cultura popular est, certamente, longe de se restringir aos historiadores.  compartilhado  e vem sendo compartilhado h muito tempo 
 pelos socilogos, folcloristas e estudantes pg.15 de literatura, aos quais vieram juntar-se mais recentemente os historiadores da arte e os antroplogos sociais, 
sem falar nessa rea vagamente definida conhecida na Inglaterra como "estudos culturais".7 Entre si, esses grupos produziram um respeitvel corpo de trabalhos.
Como resultado de todo esse esforo, a cultura popular do incio da Europa moderna parece hoje, pelo menos a meu ver, um pouco diferente. Foi-me gratificant ver 
que uma parte substancial desses estudos novos usa meu trabalho e que alguns conceitos de minha autoria, principalmente o de "reforma" e o de "retirada" da cultura 
popular, passaram a ter uso geral, apesar das discordncias quanto  durao ou  explicao exala dessas tendncias.
 bastante bvio que a multiplicao de monografias sobre temas ou regies particulares modificar um quadro geral da Europa como o que tracei, mas vale a pena enfatizar 
que os estudos sobre a China, a ndia e a Amrica Latina (e, esperemos, estudos futuros sobre a frica e o Oriente Mdio) tambm so relevantes para uma tal sntese. 
Eles definem por contraste o que  especificamente europeu e revelam os pontos fortes e fracos de conceitos fundamentais, ao test-los em situaes para as quais 
no foram originalmente criados (tais como sociedades nas quais tribos ou castas perpassam divises entre "elite" e "povo").
 impossvel resumir em uma frmula nica todas as sugestes feitas no decorrer de dez anos de debate sobre cultura popular, mas ele tendeu a concentrar-se em dois 
temas ou questes principais. A primeira questo  "O que  'popular'?", a segunda, "O que  'cultura'?".

O PROBLEMA DO "POPULAR"
A noo do "popular" foi h muito reconhecida como problemtica, e como tal discutida na primeira edio deste livro. Assim mesmo, as discusses recentes revelaram 
mais problemas, ou chamaram a ateno mais diretamente para algumas dificuldades.
Uma questo hoje levantada frequentemente  que o termo "cultura popular" d uma falsa impresso de homogeneidade e que seria melhor us-lo no plural, ou substitu-lo 
por uma expresso como "a cultura das classes populares" (Mandrou 1977, Ginzburg 1979). Como o captulo 2 deste livro foi dedicado a esse problema, parece desnecessrio 
falar mais sobre ele aqui.
Outra objeo, ao que se chama s vezes de "modelo de duas camadas" de cultura de elite e popular,  a seguinte.8 A fronteira entre as pg.16 vrias culturas da 
povo e as culturas das elites (e estas eram to variadas quanto aquelas)  vaga e por isso a ateno dos estudiosos do assunto deveria concentrar-se na interao 
e no na diviso entre elas. O interesse cada vez maior no trabalho do grande crtico russo Mikhail Bakhtin, cuja maior parte est agora traduzida para as lnguas 
ocidentais, revela ao mesmo tempo que estimula essa mudana de nfase.9 O destaque dado por ele  importncia da "transgresso" dos limites  aqui obviamente relevante. 
Sua definio de Carnaval e do carnavalesco pela oposio no s elites, mas  cultura oficial, assinala uma mudana de nfase que chega quase a redefinir o popular 
como o rebelde que existe em todos ns, e no a propriedade de algum grupo social.10
As interaes entre as duas culturas (em suas mltiplas variedades) foram discutidas em vrios momentos na primeira edio deste livro, mais especialmente nas sees 
que tratavam do que chamei de "biculturalidade" das elites, suas tentativas de "reformar" a cultura popular, sua "retirada" dela e finalmente sua "descoberta", ou 
mais exatamente "redescoberta" da cultura do povo, especialmente os camponeses.
No obstante, aprendi muito das discusses recentes dessas interaes, inclusive das crticas explcitas s minhas prprias formulaes, e embora eu no veja ainda 
nenhuma razo para abandonar qualquer uma delas, gostaria de acrescentar algumas nuances.
Concordo, por exemplo, que o termo "cultura popular" tem um sentido diferente quando usado por historiadores para referir-se: (1)  Europa por volta do ano de 1500, 
quando a elite geralmente participava das culturas do povo, e (2) ao final do sculo XVIII, quando a elite tinha geralmente se retirado.11
Em outras palavras, o assunto deste livro no  no final do perodo o mesmo que era no incio, dificuldade com a qual tm de se haver os historiadores das tendncias 
de longa durao.
Outra objeo diz respeito a meu uso do termo "bicultural". Cunhei esse termo seguindo o modelo de "bilingue", para descrever a situao de membros da elite que 
aprenderam o que hoje chamamos de canes e contos populares na infncia, como todo mundo aprende, mas que tambm participaram de uma cultura "alta", ensinada em 
escolas secundrias, universidades, cortes etc., s quais as pessoas comuns no tiveram acesso. Um paralelo lingstico mais exato poderia ser "diglossia", ou seja, 
a competncia em duas variedades da mesma lngua (rabe clssico e coloquial, por exemplo), com um mesmo orador pg.17 passando de uma variedade a outra de acordo 
com a situao, o assunto da conversao e assim por diante.12 A sugesto de que a cultura popular tem um significado diferente para quem tambm tem acesso  cultura 
da elite me parece razovel, mas no  uma objeo sria ao uso do termo "bicultural".13  provvel, afinal de contas, que os bilnges e os monolnges tenham atitudes 
de algum modo diferentes em relao  lngua.
Outra sugesto, ou critica, deixa-me em dvida. Um historiador de diverses "populares" na Paris do sculo XVIII argumenta que membros da elite participavam dos 
espetculos apresentados nas feiras e nas ruas com tal frequncia que  possvel falar de "convergncia entre cultura popular e cultura de elite".14 Considerando 
que a anlise da situao local esteja certa, permanecem problemas. Essa "convergncia" era um fenmeno comum na Europa de ento? Se sim, era o resultado da comercializao 
da cultura popular? E de novo nos defrontamos com o problema da significao. Uma apresentao em uma feira de Paris tem o mesmo significado para as elites que participavam 
e para as "classes populares"? Algumas dificuldades esto associadas ao termo "participao", que  mais vago do que pode parecer, pois  usado geralmente para referir-se 
a um leque de atitudes que variam da total imerso  observao desinteressada.
As idias e iniciativas das pessoas comuns tambm foram reexaminadas, e fui gentilmente repreendido por alguns historiadores ingleses por sugerir no captulo sobre 
a "Vitria da Quaresma" que houve um movimento liderado pela elite que visava  reforma da cultura popular.15 Talvez seja elucidativo abordar ou enfatizar dois aspectos. 
O primeiro  que a cultura popular no foi o nico objeto do ataque dos reformadores. Eles tendiam a opor-se  cultura "profana" ou mundana indiscriminadamente. 
Contudo, eles frequentemente escolhiam idias e prticas que atribuam ao "povo". O segundo aspecto a ser enfatizado  que esse movimento reformista no se restringia 
a uma elite social ou cultural; "os artesos piedosos existiram". No pretendo sugerir que a reforma era imposta de cima no sentido de que as pessoas comuns nunca 
a apoiavam espontaneamente. Nem toda a elite apoiava as reformas e nem todo o povo se opunha a elas. A questo que levantei era e  simplesmente a de que "a liderana 
do movimento estava nas mos dos cultos, normalmente o clero", Andreas Osiander, Joo Calvino, Carlos Borromeu e outros. Por mais espontneas que fossem, as aes 
de um arteso piedoso eram resposta a uma iniciativa que vinha originalmente de cima. Alguns estudiosos descreveriam tais aes como um exemplo da hegemonia cultural 
do clero. Pg.18 Uso essa frase para chamar a ateno para uma ausncia, notvel do quadro de referncia deste livro; a noo de Gramsci de "hegemonia cultural", 
noo esta que foi muito empregada nos ltimos anos em discusses das interaes entre cultura de elite e cultura popular, notadamente por Edward Thompson.16 Essas 
discusses fizeram-me perceber que meu prprio estudo no era suficientemente poltico e que muito mais poderia ter sido dito sobre o Estado em meus captulos sobre 
a mudana.17 Mesmo assim, fico um pouco apreensivo sobre o constante apelo  "hegemonia cultural" em estudos recentes, e sobre o modo como um conceito usado pelo 
prprio Gramsci para analisar problemas particulares (tais como a influncia da Igreja na Itlia meridional) foi retirado de seu contexto original e usado mais ou 
menos indiscriminadamente para tratar de uma srie mais ampla de situaes. Gostaria de sugerir, como um antdoto contra essa inflao ou diluio do conceito, que 
os que o usam tivessem em mente as trs seguintes questes.
         1) A hegemonia cultural deve ser considerada um fator constante ou ela s tem operado em certos lugares e pocas? Neste caso, quais as condies e os indicadores 
de sua existncia?
     2) O termo  descritivo ou explicativo? Neste caso, refere-se a estratgias conscientes da classe dominante (ou de grupos em seu interior) ou racionalidade 
inconsciente ou latente de suas aes?
     3) Como devemos considerar a realizao dessa hegemonia? Ela pode estabelecer-se sem o conluio ou a conivncia de pelo menos alguns dos dominados (como no caso 
dos artesos piedosos)? Pode-se opor-lhe resistncia com sucesso? Se sim, quais so as principais "estratgias contra-hegemnicas"?18 A classe dominante impe seus 
valores s classes subalternas ou h algum tipo de compromisso, com definies alternativas da situao? O conceito de "negociao", como  usado correntemente pelos 
socilogos e historiadores sociais, podia ser muito til nesta anlise.19

     Todas as objees  idia de cultura popular discutidas at aqui so relativamente brandas no sentido de que envolvem qualificaes ou mudanas de nfase. Outras 
objees so mais radicais e envolvem tentativas de substituir inteiramente o conceito. Duas dessas objees merecem, particularmente, ser discutidas; a de William 
Christian e a de Roger Chartier.30
        Em seu estudo de votos, relquias e santurios na Espanha do sculo XVI, Christian argumenta que o tipo de prtica religiosa que est descrevendo "era uma 
caracterstica tanto da famlia real quanto dos pg 19 camponeses analfabetos", e recusa-se, conseqentemente, a usar o termo "popular". Em seu lugar ele usa o termo 
"local", argumentando que "a grande maioria dos lugares e monumentos sagrados tinha significado apenas para os, habitantes locais".21 Essa nfase nas caractersticas 
locais do que geralmente se chama de religio "popular"  importante, apesar de no ser exatamente nova. O que  novo  a sugesto de que abandonemos um modelo binrio, 
o de elite e povo. e o substituamos por outro, o de centro e periferia. Esses modelos centro-periferia tm sido usados cada vez mais por historiadores nos ltimos 
anos,em histria econmica, histria poltica e mesmo na histria da arte.Eles tm seu valor, e certamente eu mesmo os considero teis na anlise das reaes de 
"Roma" s presses locais por canonizao. Entretanto, no esto livres de problemas e ambigidades. A noo de "centro", por exemplo,  difcil de definir, pois 
os centros espaciais e os centros de poder nem sempre coincidem (pensamos em Londres, Paris,Pequim...). No caso do Catolicismo, podemos razoavelmente assumir que 
Roma seja o centro, mas  bastante claro que as devoes no oficiais eram to comuns naquela cidade santa quanto em qualquer outro lugar. Ao se tentar eliminar 
uma dificuldade conceitual, criou-se outra.
        O problema bsico  que uma "cultura"  um sistema com limites muito indefinidos. O grande valor dos ensaios recentes de Roger Chartier sobre "hbitos culturais 
populares"  que ele tem essa indefinio sempre em mente. Ele argumenta que "no faz sentido tentar identificar cultura popular por alguma distribuio supostamente 
especfica de objetos culturais", tais como ex-votos ou a literatura de cordel, porque esses objetos eram na prtica usados ou "apropriados" para suas prprias finalidades 
por diferentes grupos sociais, nobres e clrigos assim como artesos e camponeses.  Seguindo Michel De Cerceau e Pierre Bourdieu, ele sugere que o consumo cotidiano 
 um tipo de produo ou criao, pois envolve as pessoas imprimindo significado aos objetos. Nesse sentido todos ns nos engajamos em bricolage.24 Chartier prossegue 
sugerindo que os historiadores estudem "no conjuntos culturais definidos como 'populares' mas sim os modos especficos pelos quais esses conjuntos culturais so 
apropriados".
        Aceito esses argumentos, e admiro a anlise da Bibliothque Bleue francesa que Chartier fez nessa direo, mas no acho que deva, em consequncia, alterar 
muita coisa deste livro. O que Chartier est fazendo, ao enfocar os objetos,  complementar e no contraditrio com o que fiz ao focalizar grupos sociais, quando 
escrevi sobre as elites do comeo da Europa moderna como "biculturais", participando da pg 20 cultura popular mas preservando sua prpria cultura; ou efetivamente 
quando defini cultura com nfase na mentalidade como "um sistema de significados, atitudes e valores compartilhados, e as formas simblicas (apresentaes, artefatos) 
nas quais eles se expressam ou se incorporam". Ainda assim, a noo de cultura precisa ser reexaminada.

                 A NOO DE "CULTURA"
Os problemas suscitados pela utilizao do conceito de "cultura" so no mnimo ainda maiores que os suscitados pelo termo "popular". Uma razo para esses problemas 
 que o significado do conceito foi ampliado na ltima gerao  medida que os historiadores e outros intelectuais ampliaram seus interesses. Na era da chamada "descoberta" 
do povo, o termo "cultura" tendia a referir-se a arte, literatura e msica, e no seria, incorreto descrever os folcloristas do sculo XIX como buscando equivalentes 
populares da msica clssica, da arte acadmica e assim por diante. Hoje, contudo, seguindo o exemplo dos antroplogos, os historiadores e outros usam o termo "cultura" 
muito mais amplamente, para referir-se a quase tudo que pode ser aprendido em uma dada sociedade  como comer, beber, andar, falar, silenciar e assim por diante. 
Em outras palavras, a histria da cultura inclui agora a histria das aes ou noes subjacentes  vida cotidiana. O que se costumava considerar garantido, bvio, 
normal ou "senso comum" agora e visto como algo que varia de sociedade a sociedade e muda de um sculo a outro, que  "construdo" socialmente e portanto requer 
explicao e interpretao social e histrica. Essa nova histria cultural  s vezes chamada histria " sio-cultural" para distingui-la das histrias mais tradicionais 
da arte, da literatura e da msica.           
Minha definio original de cultura levou em conta o cotidiano. Eu pretendia que os termos-chave "artefatos" e "apresentaes" fossem compreendidos num sentido amplo, 
estendendo a noo de "artefato" para incluir construes culturais tais como as categorias de doena, sujeira, gnero ou poltica, e a de "apresentao" para abarcar 
formas de comportamento culturalmente estereotipadas, tais como festas ou violncia. Na prtica, devo admitir, o livro concentra-se numa srie mais estreita de objetos 
(principalmente imagens, material impresso e casas) e atividades (especialmente canto, dana, representao teatral e participao em rituais), a despeito da tentativa 
de colocar esses objetos e atividades em um contexto social, econmico e poltico pg.21 mais amplo. A revolta popular foi discutida com algum detalhe, mas pode-se 
dizer que sexo, casamento e vida familiar, por exemplo, foram virtualmente omitidos.25
Foi acertada essa deciso de optar na prtica por uma definio mais restrita de cultura? No incio dos anos 1970 quando comecei a pesquisa para este estudo, poucos 
exemplos do novo tipo de histria scio-cultural haviam j sido publicados, de modo que no havia amadurecimento para uma sntese. Pode-se dizer que o preo pago 
pelas ambies geogrficas mais amplas do livro, por sua tentativa de pesquisar a Europa da Irlanda e Portugal ale os Urais, foi limitar nesse sentido suas ambies 
temticas e concentrar-se no que podia ser comparado e contrastado com algum grau de preciso, como baladas e chap-books.
Se estivesse comeando a pesquisa agora, no estou certo do que faria. A idia de escrever uma histria scio-cultura! geral do incio da Europa moderna  por certo 
atraente. Por outro lado ainda me parece que h lugar para um livro que se concentra nos artefatos e apresentaes em sentido estrito, porque esse tema mais limitado 
permite um estudo comparativo mais rigoroso do que o tema mais amplo.
Certamente  impossvel traar um limite preciso entre o sentido estrito  o amplo de "cultura", e pode ser til concluir essa introduo pela discusso de alguns 
exemplos de pesquisa recente que se situam entre os dois. Tomemos, por exemplo, o caso dos insultos, que podem ser considerados, pelo menos em algumas culturas, 
tanto como uma forma de arte uu gnero literrio, quanto como uma expresso de hostilidade genuna.
Na Roma do sculo XVIII, por exemplo, eles assumiram tanto forma escrita e pictrica quanto oral, usaram tanto o verso quanto a prosa, e fizeram aluso a, ou parodiaram, 
epitfios e comunicados oficiais.26 Algum pode, novamente, tomar exemplos de cultura material, notando, como, por exemplo, Hans Medick fez, os meios pelos quais 
o consumo conspcuo de alimentos e roupas "funcionava como um veculo da autoconscincia plebia" no sculo XVIII.27 O trabalho recente de arquelogos e antroplogos 
ilustrou os diferentes modos pelos quais o estudo da "vida social das coisas" pode revelar os valores de indivduos, grupos e sociedades inteiras. No caso da Amrica 
do Norte de meados do sculo XVIII, por exemplo, argumentou-se que as mudanas nas prticas funerrias, no modo de consumo dos alimentos e na organizao do espao 
vital sugerem todas uma mudana em valores que pode ser descrita como o nascimento do individualismo e da privacidade.28 pg.22
Exemplos como esses sugerem que apesar de ser til distinguir o conceito de "cultura" do de "sociedade", em vez de us-lo para referir-se a quase tudo, essa distino 
no deveria seguir linhas tradicionais. Os historiadores da cultura deveriam definir-se no em termos de uma rea ou "campo" particular como arte, literatura e msica, 
mas sim de uma preocupao distintiva com valores e smbolos, onde quer que estes se encontrem.

Este texto foi originalmente publicado como introduo  edio espanhola de A cultura popular na Idade Moderna, e  aqui reproduzido por sugesto do Autor. (N.E.). 
pg.23

PRLOGO
O objetivo deste livro  descrever e interpretar a cultura popular dos incios da Europa moderna. "Cultura"  uma palavra imprecisa, com muitas definies concorrentes: 
a minha definio  a de "um sistema de significados, atitudes e valores partilhados e as formas simblicas (apresentaes, objetos artesanais) em que eles so expressos 
ou encarnados".1 A cultura nesta acepo faz parle de todo um modo de vida, mas no  idntica a ele. Quanto  cultura popular, talvez seja melhor de incio defini-la 
negativamente como uma cultura no-oficial, a cultura da no-elite, das "classes subalternas", como chamou-as Gramsci.2 No caso dos incios da Europa moderna, a 
no-elite era todo um conjunto de grupos sociais mais ou menos definidos, entre os quais destacavam-se os artesos e os camponeses. Portanto uso a expresso "artesos 
e camponeses" (ou "povo comum") para sintetizar o conjunto da no-elite, incluindo mulheres, crianas, pastores, marinheiros, mendigos e os demais grupos sociais 
(as variaes culturais dentro desses grupos esto discutidas no capitulo 2).
Para descobrir as atitudes e valores dos artesos e camponeses  necessrio alterar as abordagens tradicionais da histria da cultura, desenvolvidas por homens como 
Jacob Burckhardt, Aby Warburg e Johan Huizinga, e recorrer a conceitos e mtodos de outras disciplinas. A disciplina a que se recorre naturalmente  a do folclore, 
visto que os folcloristas esto interessados principalmente em "O povo" (the folk), em tradies orais e rituais. Boa parte do material a ser discutido neste livro 
tem sido estudada ha muito tempo por especialistas no folclore europeu.3 Parte tem sido estudada por crticos literrios; sua nfase nas convenes dos gneros literrios 
e sua sensibilidade  linguagem do-lhes um discernimento que o historiador da cultura no pode dispensar.4 Apesar das diferenas evidentes entre a cultura dos azandes 
ou pg.25 dos borors e a cultura dos artesos de Florena ou dos camponeses do Languedoc, o historiador da Europa pr-industrial pode aprender muito com as antroplogos 
sociais. Em primeiro lugar, os antroplogos dedicam-se a entender o conjumo de uma sociedade estranha a partir de seus prprios termos, ao passo que os historiadores, 
at recentemente, tendiam a restringir seu interesse s classes superiores. Em segundo lugar, os antroplogos no param quando descobrem a viso do agente sobre 
o significado de sua ao, mas avanam para estudar as funes sociais cios mitos, imagens e rituais.5
O perodo abarcado por este livro vai, aproximadamente, de 1500 a 1800. Em outras palavras, corresponde ao que os historitidores muitas vezes chamam de "incios 
do perodo moderno", mesmo quando negam sua modernidade. A rea em discusso  o conjunto da Europa, da Noruega  Siclia, da Irlanda aos Urais. Essas opes necessitam, 
talvez, de algumas palavras de explicao.
Originalmente concebido como um estudo regional, este livro se converteu numa tentativa de sntese. Dadas as dimenses do assunto,  bvio que no se pretendeu nenhum 
tipo de cobertura abrangente; o livro  antes uma srie de nove ensaios sobre temas centrais, ligados entre si. relativos ao cdigo da cultura popular, e no tanto 
a mensagens individuais, e apresenta uma descrio simplificada das questes recorrentes e das principais tendncias. A escolha de um assunto to vasto tem srios 
inconvenientes, e o mais evidente  o fato de que no se pode estudar nenhuma regio em detalhe e profundidade. Tambm foi preciso ser impressionista, renunciar 
a certas abordagens quantitativas promissoras, pois as fontes no eram suficientemente homogneas ao longo desses grandes perodos de espao e tempo para poderem 
ser exploradas dessa maneira.6 Mas h vantagens compensadoras. Na histria da cultura popular existem problemas recorrentes que precisam ser discutido a um nvel 
mais geral do que o da regio  problemas de definio, explicaes, de transformaes e, o mais evidente, a importncia e os limites da prpria variao regional. 
Enquanto os estudos locais ressaltam acertadamente essas variaes, meu propsito  complement-los, tentando reunir os fragmentos e v-los como um todo, como um 
sistema de partes inter-relacionadas. Espero que este pequeno mapa de um imenso territrio ajude a orientar futuros exploradores. mas tambm escrevi tendo em mente 
o leitor comum; um estudo sobre a cultura popular  algo que jamais pode ser esotrico.
Os anos entre 1500 e 1800 foram escolhidos por constiturem um perodo suficientemente longo para revelar as tendncias menos visveis e por serem os sculos com 
melhor documentao sobre a histria da pg.26 Europa pr-industrial. A longo prazo, a imprensa solapou a cultura oral tradicional; mas, nesse processo, tambm registrou 
grande parte dela, tornando conveniente comear quando os primeiros folhetos e brochuras estavam saindo do prelo. O livro termina no final do sculo XVIII devido 
s enormes transformaes culturais empreendidas pela industrializao, embora tais transformaes no tivessem afetado toda a Europa igualmente ern 1800. Em consequncia 
da industrializao, temos de fazer um esforo considervel de imaginao antes de conseguirmos penetrar nas atitudes e valores dos artesos e camponeses dos incios 
da Europa moderna (se  que isso  possvel). Deixemos de lado a televiso, o rdio e o cinema, que padronizaram os vernculos da Europa na memria dos vivos, para 
no citar transformaes menos bvias, mas talvez mais profundas. Deixemos de lado as estradas de ferro, que provavelmente contriburam at mais do que o servio 
militar obrigatrio e a propaganda governamental para corroer a cultura especfica de cada provncia e para converter as regies em naes. Deixemos de lado a educao 
e alfabetizao universais, a conscincia de classe e o nacionalismo. Deixemos de lado a moderna confiana (ainda que abalada) no progresso, na cincia e na tecnologia, 
e deixemos de lado os modos profanos em que as esperanas e os medos so expresses. Tudo isso (e mais)  necessrio antes de conseguirmos penetrar no "mundo (cultural) 
que perdemos".
Como tentativa de sntese, alguns podem julgar esta obra prematura; espero que no o faam antes de consultar a bibliografia.  verdade que a cultura popular s 
passou da periferia para o centro dos interesses do historiador ao longo dos ltimos quinze anos, graas aos estudos de Jlio Caro Baroja, na Espanha, Robert Mandrou 
e Natalie Davis, na Frana, Carlo Ginzburg, na lilia,  Edward Thompson e Keith Thomas, na Inglaterra. H, no entanto, uma longa tradio de interesse pelo assunto. 
Houve geraes de folcloristas alemes com perspectivas histricas, como Wolfgang Brckner, Gerhard Heilfurth e Otto Clemen. Nos anos 1920, um importante historiador 
noruegus, Halvdan Koht, interessou-se pela Cultura popular. No comeo do sculo, a escola finlandesa de folcloristas interessou-se por histria; Kaarle Krohn e 
Anti Aarne so exemplos dessa tendncia. No final do sculo XIX, destacados estudiosos da cultura popular, como Giuseppe Pitr, na Siclia, e Tefilo Braga., em 
Portugal, tinham clara conscincia das transformaes ao longo do tempo. Mas a obra de Pitr e Braga faz parte de uma tradio compilatria que remonta  poca em 
que os intelectuais descobriram o povo, no final do sculo XVIII e incio do sculo XIX.  para este movimento que agora me volto. pg.27
